O Zé de Ribamar

 

DSCN0445Uma barraquinha e um cavalete cá fora onde uma prancha aguarda na sala de operações. Um cantinho verde e os teus cães sempre presentes. Lá em baixo a onda mais perfeita de Portugal. Aqui em cima estás tu Zé, homem simples de Ribamar e um ser errante como tantos outros. Contavas-me, às vezes repetidamente, que há muitos anos te tinhas esquecido na clínica de desintoxicação de uns slides antigos, com fotos históricas das ondas mais perfeitas da Baía dos 2 Irmãos. Foi a malta da fábrica de pranchas que te deu. Devia ser para te dar força. Para te lembrares do mar aqui de Ribamar.

Era apenas teu cliente mas conhecia-te como alguém com hábitos. Passear os cães e desceres na tua mota para observares as ondas da baía. Não ias à água mas no teu sítio sabia sempre se as ondas da semana tinham sido fortes. Alguns locais corajosos deixavam as pranchas ao teu cuidado nos dias de pancada. Tratavas delas, davas-lhes esperança e um prolongar de vida.

Sabes Zé, gostava de parar no teu cantinho, ao lado daquela curva apertada antes do moinho e da marisqueira cheia de domingueiros que não sabem ver o mar sem ser através de janelas e a martelar sapateiras. Esse cantinho tinha cheiro a maresia com resina e posters de surfistas que ainda hoje invejo e de mulheres morenas de corpos perfeitos que é difícil não desejar. Tinha pranchas cheias de história e de sonhos. Sonhos que já não quiseste seguir. Eras um gajo solitário, é verdade, mas tinha dias em que falavas tanto que eu perdia a maré. Caraças, podias continuar a falar, eu ouvia-te, juro!

Soube há uns tempos, mas só agora decidi escrever-te. Puseste fim à vida, seu sacana! Nem me deste tempo para ser teu amigo. Nem sei se algum dia iria ser. Mas talvez a amizade seja feita de coisas simples, como esperar por ti enquanto bebias o teu galão no café do mercadinho. Uma espera interesseira, eu sei. Afinal só queria a prancha pronta para deslizar nas ondas. A minha droga Zé! Aquela que me vicia o corpo e a alma e me dá muitas cicatrizes! Mas faz-me viver a vida com um sorriso louco!

Fodasse Zé, com o paraíso ali em baixo e tu fazes uma merda dessas…

Márcio Freire, um homem que fez história!

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Márcio Freire a fazer história. Arquivo pessoal

Conhecem o Márcio Freire? Provavelmente já ouviram falar do nome, mas não o suficiente para apreciarem e admirarem a sua bravura. Os holofotes em Portugal têm encandeado o público menos atento ao vulgarizar a expressão big wave rider, atribuindo muitas vezes essa designação a surfistas medíocres que procuram a fama desmedida, agarrados à corda de uma mota de água, sem terem as bases necessárias para o fazer. Longe de ser um crítico do tow in, sou admirador de algumas sumidades nessa matéria,  como Laird Hamilton ou Kai Lenny, e de outros tantos surfistas de diferentes nacionalidades que arriscam as suas vidas em busca de descargas de adrenalina, quando o assunto se torna sério em ondas grandes e em slabs perigosos. Mas não confundamos as coisas, nem banalizemos o surf de ondas grandes. Um colete insuflável, uma corda e um piloto de mota de água à espera no canal, podem ajudar muito, mas não transformam surfistas em big wave riders.

Mas não me quero perder pelas cordas do tow in, voltarei ao tema numa próxima crónica, por agora queria falar-vos do Márcio Freire, um freesurfer com uma coragem rara, que enfrentou, com dois amigos (Danilo Couto e Yuri Soledade), a assustadora onda de Jaws quando ninguém imaginava que era possível descê-la apenas com a força de braços. Márcio faz parte de um grupo restrito de surfistas de elite que merece o reconhecimento de todos nós. Viveu em Maui mais de 20 anos e por lá construiu um caminho de respeito, sendo admirado por destemidos surfistas havaianos.

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Márcio e a sua boa energia. Photo by Francois Laborde

Há cerca de um mês, numa sessão de surf no Alentejo, tive o prazer de admirar a sua técnica em ondas pesadas. Visitou o sul a convite do seu amigo de longa data, Bruno Veiga, surfista/fotógrafo e empresário na área de boat trips na Indonésia. Após a surfada, o André Teixeira, meu amigo e pioneiro desse local especial, convidou-nos para uma cervejinha e uma boa conversa. É sempre tão reconfortante uma troca de palavras depois de intensos momentos na água. E garanto-vos que foi um momento especial. Dois portugueses testemunharam a raça de dois brasileiros. A coragem de partir e de lutar pelos seus sonhos. O Márcio rumo ao Havai e o Bruno à Indonésia. Cada um fez o seu caminho e ali estavam eles 20 anos depois em amena cavaqueira, a desfrutar de um pôr-do-sol bonito, após descerem umas ondas de consequência, contando estórias da juventude no seu Brasil.

A amizade do Márcio e do Bruno dava matéria para fazer um documentário que ainda não existe. Mas o Mad Dogs, a história de 3 surfista de ondas grandes, do qual o Márcio é um dos protagonistas, já existe! E é obrigatório ver!

 

 

Mar de frustração

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Occy. Surfer Magazine

A história repete-se! A inspiração dos surfistas mais criativos, leia-se melhores do mundo, é resultado de conseguir perceber o passado, gozar o presente e inovar no futuro, com a certeza que partilhar ondas  entre amigos e desconhecidos, sem público e sem estrelato, deve ser a base para alcançar todos os outros patamares.

Se não houver surfista de coração antes do “atleta”, o caminho vai ser curto e frustrante. E depois do erro cometido será difícil encontrarmos um homem do mar, feliz, sentado na sua prancha sem logotipos, à espera de uma onda bonita, numa tarde de sábado em que o sol de inverno aquece pés que se aconchegam à água fria e transparente.

Porque se o mar não lhe der energia para enfrentar este mundo, tantas vezes cinzento e em que todos estamos mergulhados, o caminho não lhe valeu de nada… de nada!  

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Tempestade

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photo credits: The New York Times

Em modo de absoluta surpresa tu apareces com pizzas e eu que iria fazer o mesmo no dia seguinte. A conversa boa e o adormecer no sofá sem filtros como namorados de longa data. Acordar, mariscar com a tempestade ao longe e roubar-te a sobremesa com carinho. Amêndoa amarga na tasca mais tasca da vila onde só eu estava sóbrio. Até o mar corria torto com as gaivotas em terra. Contar-te segredos baixinho, raptar-te num passeio que teve tanto de vento como de sorrisos. Ver dois filmes fantásticos e tão diferentes. O primeiro, uma obra de arte do equilíbrio e o outro, sessão de tarde de uma vida com tantas mensagens bonitas. Não teria escolhido outros filmes. Tinham que ser aqueles sem pensar muito. Bem, o primeiro até pensei, e, o segundo também. Admirei o esforço que fizeste para acabares de o ver já pelas 3 da madrugada, enquanto choravas e ansiavas por um final feliz. Eu também chorei quando o vi sozinho. Olhei-te de raspão e por vezes observei-te mais tempo durante os dois filmes. Queria ver as tuas expressões enquanto sentias. Surpreendeste-me! És mais sensível do que pensava. Percebi-te melhor. Fui mais ao teu fundo que tanto me aproxima de ti.

Dormimos como pedras, mas daquelas que sentem, daquelas cheias de cor. Esqueci, por momentos, a expressão you can´t get blood out of a stone . Prefiro então pensar que essa noite fomos corais, adormecidos no fundo do mar. Sonâmbulos, sorriamos e brilhávamos enquanto dormíamos. E na parede exterior do nosso quarto a água da piscina refletia e produzia aquele balançar de sombras que tanto gostas. E num acto de magia a parede torna-se transparente e lá dentro, juntos num abraço e escondidos da noite, libertamos uma bolha de ar que sobe, sobe e nada até à superfície numa valsa perfeita de onde saímos de mão dada para acordar o novo dia.

A arte do Drop Knee

Rui Mendes
Rui Mendes um Senhor tube rider. Arquivo pessoal. Fotografia publicada na Vert Magazine

Podíamos-lhe chamar a arte do joelhinho técnico, mas facilmente éramos levados para o mundo do motociclismo. Aqui acelera-se mas sem rodas e sem joelheiras. Nos dias de hoje o drop knee é uma forma diferente, bonita e irreverente de deslizar no mar. São movimentos libertadores e radicais, técnicos e espontâneos. E, julgo que mesmo os surfistas mais conservadores ficam espantados com um bodyboarder que apresente um bom nível em drop knee.

Lembro-me de ver fotografias e filmes do Paul Roach, do Keith Sazaki ou do Kainoa McGee, mestres do estilo e da velocidade, de observar dentro de água o Batata e o Nuno Neto em Carcavelos ou o Horta na Caparica. Lembro-me de ficar paralisado com a fluidez com que se relacionavam com a onda.

No inverno passado, na Ericeira, tive o privilégio de partilhar umas ondas com o Ico Conde Veiga, Bodyboarder do norte do país. Foi daqueles encontros inesperados, depois de um surf na baía dos coxos dei comigo à conversa com um gajo porreiro, um gajo do norte, claro! Disse-me que sempre que tinha disponibilidade descia à Ericeira para surfar pointbreaks perfeitos e aproveitava para apanhar umas ondas em DK. Mais tarde trocámos umas mensagens sobre o tema. Sempre tive curiosidade em saber o que motiva as pessoas a seguirem caminhos diferentes. E o DK é um caminho diferente no mundo dos desportos náuticos. Se o bodyboard é um desporto de resistentes, o DK é a irreverência dos resistentes.

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Se já é raro ver alguém em Drop Knee, imaginem de bakside. É quase um E.T. Ico Conde Veiga na sua arte em movimento. Arquivo pessoal

Segundo o Ico, o bodyboard é uma abordagem incrível às ondas mas precisa de condições adequadas, “quem não as tiver à mão com regularidade corre o risco de se desinteressar e isso é recorrente e compreensível. Dei por mim a surfar demasiadas vezes condições que não me interessavam em Beach breaks mais convencionais e em que havia quase invariavelmente boas direitas que não me interessava surfar deitado, não obtinha prazer. Como sempre fui fazendo algum dk frontside para a esquerda e curtia acabou por chegar naturalmente um dia em que me interessei por aprender a fazer backside, (que no dk é quase como aprender outro desporto) e lá fui progredindo naturalmente e assim resolvi uma equação complicada na minha surfing life!

E acrescenta,

“passou a ser-me indiferente se são esquerdas ou direitas, divirto-me em todas desde que esteja bom.”

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Ico, nas autoestradas do norte. Arquivo pessoal

A conversa e a troca de emails com o Ico transportaram-me para a minha adolescência na praia de S.João de Caparica, onde partilhei muitas ondas com dois dos meus melhores amigos, o Carlos Lobo e o Rui Mendes, também eles bodyboarders e praticantes de DK.

Sei que ambos partilham a paixão pelo DK, mas o Rui Mendes continua a dedicar-se de uma forma intensa, desenhando linhas perfeitas que muitas vezes acabam em tubos profundos ou em manobras radicais. Não é um desconhecido no meio, mas sendo apenas um freesurfer longe do mundo das competições, nunca teve o merecido reconhecimento nos media.

“o que me motivou foi a minha adoração por ver surf e o grande respeito que tenho pela modalidade, misturado com a minha paixão pelo BB. Ali pelo meio consegui encontrar o equilíbrio para poder fazer algo que só os surfistas faziam mas numa prancha que só os bodyboarders utilizavam. Tão simples como isso.”

E termina, com palavras que resumem esta arte.

“A sensação de fazer DK é poder explorar a onda na perspectiva de um surfista, liberdade de desenhar a onda de uma forma muito mais clean sem pensar só no vamos bater no lip

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Às vezes nem precisas de pensar em bater no lip. É instintivo… Rui Mendes a soltar o tail. Arquivo pessoal

Não podia estar mais de acordo! Com tantas amarras que nos impõem, exige-se liberdade na água.

Vamos lá! Zás…

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