Molokai, O Desafio.

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Jamie Mitchell. Credits: The Australian

Caminhamos para um mundo em que o conforto é cada vez mais valorizado, mas nunca precisámos tanto de desafios. Faz parte da nossa essência! Desafiarmo-nos, sair da zona de conforto.

Para quem gosta de água, remar, nadar e deslizar são movimentos que nos dão sensações de pura liberdade. E se unirmos a palavra liberdade com desafio, temos a nossa Molokai.

Desde a costa norte da ilha de Molokai até à Costa Sul da Ilha de Oahu, 32 milhas de coragem, de esforço, de energia.  Muitos meses de treino e o sonho de conseguir terminar a corrida.

É desta competição que o Mundo precisa!

Azenha

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– Uma estrada que termina no mar! Vai!

Conduzia o carro em direção ao Sul.

Uma estrada que termina no mar! A frase tinha-lhe ficado na cabeça. Era da autoria da sua grande amiga e se ela lhe dizia para ir, ele, mesmo não querendo, teria que passar por lá. Não podia deixar de o fazer.

Há tantas estradas que terminam no mar ou sobre o mar, será que esta seria assim tão diferente? Pensava…

Julgava-se profundo conhecedor da costa sudoeste. Como podia ter falhado esta estrada? A praia, a aldeia, as casas perdidas na falésia, os pescadores, os jogos de matraquilhos de baliza a baliza intervalados com cerveja fresca. E o céu! Lembrava-lhe o planetário. Como citadino, comparava uma noite de estrelas à sala escura onde relâmpagos surgiam no teto; que ridículo…como se o planetário fosse a noite de estrelas. O termo de comparação deveria ser sempre a noite real e nunca um filme projectado no interior de uma sala.

– Viras à direita e segues para Brejão.

Ele seguia devagar desde S. Teotónio e parara num pequeno café tasca. Ele que até não era de conversas de café, quis parar para se sentir mais próximo das gentes alentejanas.

– Ó jovem, o mar é o mesmo aqui ou lá em baixo! Vai às algas? Respondeu e perguntou o septuagenário.

– Talvez…Ao mar vou! As algas andam por ali, devo encontrá-las!

Sem saber o significado das algas para a Azenha, safou-se bem, mergulhado no senso comum, numa frase que não dizia nada mas que podia dizer tudo.

As algas andam por ali…

Orgulhoso da ridícula resposta (ainda não sabia a dimensão do ridículo) colocou as chaves na ignição.

– Esquece Odeceixe e a tua princesa norueguesa, ela não vai estar lá e estrelas não vão faltar, vai à Azenha. Vai!

E o carro a querer seguir em frente, piloto automático que o guiava, não queria ver as saídas para a direita antes da ponte de Odeceixe, não podia haver, não queria que houvesse.

Vai à Azenha do Mar!

E S.Teotónio a ficar mais longe, e o cruzamento mais perto, aquele que ninguém via, aquele em que o carro não queria virar.

Já não ouvia Azenha. Queria ouvir Mar, porque o mar é o mesmo aqui neste cruzamento ou lá em Baixo em Odeceixe.

Vai ao Mar de Brejão, a tua princesa já deve estar perdida nas Serras do Algarve, agora é moda. Não percas tempo para Sul, fica já aí. Vai à Azenha!

E o cruzamento parado no tempo.

E o Caetano Veloso no Coliseu! E a mesa da tasca pronta à nossa espera, e o Pedro que não vai chegar, e o álcool que não pode entrar no meu corpo de grávida.

E eu aqui na Praia da Adraga com a Maria da Paz a olhar os irmãos pelo meu umbigo e o Pedro a descobrir a Praia escondida, a encontrar a Leonor e as ondas alentejanas para surfar. A aproximar-se do mar e a tocar com a prancha nas palavras que a poetisa bailarina escrevia com os pés na areia, dançando e rodopiando.

E os meus filhos a confundirem a areia da praia da Adraga com a areia do sudoeste alentejano e a arrancarem cada letra para dentro das pás e dos baldes, correndo de seguida na direção do mar, trazendo mais areia molhada. A construírem pequenos castelos que afundavam os passos e as letras dela. E a Maria da Paz sem perceber os irmãos, a esticar-se dentro da minha barriga para poder espreitar uma vez mais pelo umbigo que lhe servia de janela. Eu, a dar ordens para que apagassem o poema e o Pedro, paralisado na areia do Alentejo, a memorizar cada pedaço de letra que íamos apagando aqui pela Adraga. A escrever mais palavras com o bico da prancha. A tentar encaixar-se no poema que nós por aqui matávamos com a areia de Sintra, viajando numa espiral. Cá e lá, lá e cá.

E eu com estes pressentimentos de melhor amiga do Pedro, a tentar afastá-lo da Leonor como o afastei da norueguesa da serra algarvia. Arrependida de lhe indicar a direção da Azenha. Com medo que ele voltasse a sofrer, com medo que não gostasse das ondas… com medo de mais uma falsa sereia que esconde de uma forma bonita o tanto que de feio tem.

E a lutar com as palavras dela, que decerto enganavam o Pedro. A pressentir que ela não era mulher para ele e a mandar os meus filhos apagarem as letras, agora espezinhando-as com os seus pés nus, em saltinhos inocentes.

Se não formos nós será o mar. As marés estão grandes, é a morte do poema de areia! Morre agora no balde de plástico vermelho que um dos meus filhos carrega e morre mais tarde com a maré cheia. Morre duas vezes! E o vento que sopre! Que sirva de borracha verde, daquelas que não deixam vestígios.

Não acredites em palavras de areia!

E as palavras a desaparecerem na areia da Adraga à minha ordem. Mas sem o meu controlo, a nascerem no sul, na areia da praia da Amália, com o bico da prancha a desenhá-las e a seguir os pés da poetisa.

O Pedro a encontrar a Leonor e a sair satisfeito do mar, com ondas tortas e com algum vento, mas a encontrá-la. A ouvi-la falar, apaixonada pela sua terra:

– Para mim a Azenha é um pedaço de terra e de mar que tenho sempre comigo. É parte da minha identidade, da minha alma. É oxigénio que respiro, é oxigénio dos mergulhadores da apanha da alga.

Agora é que ele se perdeu e já vê nas ondas de vento ondas perfeitas. Está cego!

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E eu sem saber se aquela bonita mulher é onda fiel da baía de sempre ou se quebra um dia aqui e outro ali, dependendo da maré e dos bancos de areia. Com medo que ela seja uma onda imprevisível, rasteirando o pobre homem, num corpo de espuma branca.

Toca o telefone que vibra, fazendo levantar grãos de areia na toalha laranja da praia da Sintra.

– Já não subo a Lisboa para jantar e o Caetano que arranque com o concerto porque eu não vou. Que toque só para ti e para a Maria da Paz, de camarote na tua barriga. Vou ficar aqui pela Azenha com uma garrafa de vinho e marisco a preço de pobre e, quem sabe, um beijo da Leonor e umas ondas sem vento.

E eu calada a ouvi-lo…

– Hoje, escrevi e li poemas na areia mas o vento soprava forte e apagava todas as letras. A maré enchia rápido e também não ajudava. Estranho… Parecia que a natureza estava a mando de alguém.

Obrigado por insistires para espreitar a Azenha! Já não sigo mais para sul! Por agora, este é o meu final de estrada!

 

Surfistas de Competição

Deeply Pro Anglet 2019
Francisca Veselko no Deeply Pro Anglet 2019. Créditos WSL

Há uma luz ao fundo, mas o túnel ainda é muito escuro…

Nunca houve tantas escolas de surf, nunca se repetiu tantas vezes a palavra treino, nunca houve tantas crianças em ATL´s, nunca houve tanto crowd nas nossas águas e tanto investimento neste desporto por parte das entidades públicas e privadas. Mas continuamos a ser um país com um nível de surf muito abaixo das verdadeiras potências, como o Havai, a Austrália ou o Brasil.

Encontro facilmente três razões para isso acontecer. Existem muitas mais, estas são apenas as que saltam mais à minha vista. Permitam-me que as partilhe, sem crítica destrutiva e sem maldade nos comentários.

1 – Percentagem reduzida na transmissão de experiências entre familiares.

Analisemos alguns dos surfistas que ainda muito novos já estão a dar cartas ao nível internacional.

João Mendonça, Afonso Antunes, Joaquim Chaves, Francisca Veselko, Beatriz Carvalho. O que têm em comum? Familiares que são surfistas experientes.

Estes, sem dúvida, estarão sempre em vantagem em relação aos restantes (a maioria). O Agente de socialização família tem demonstrado ser uma das armas mais eficazes para transformar desportistas em campeões.

É certo que Frederico Morais não vem de uma família de surfistas, mas vem de uma família de desportistas e esse factor foi decisivo para o seu sucesso enquanto surfista. Em momentos cruciais da sua carreira soube-se rodear das pessoas certas, nomeadamente do experiente surfista Richard Marsh.

2 – Grande percentagem de treinadores de surf com fraquíssimas competências para ensinar.

Uma câmara de filmar, uma pele bronzeada, uma mala gira e um caderninho de apontamentos, não fazem um treinador. É preciso saber explicar movimentos. Não digo que seja necessário fazer um aéreo 360º para teorizar a manobra, mas o que dizer de um treinador de surf que não surfa mais de meio metro ou não sabe fazer um bottom turn e uma rasgada com fluidez? Tem credibilidade para ensinar movimentos mais técnicos?

E aqui acontece o primeiro erro dos pais não surfistas. Não conseguem analisar se o treinador x ou y é de facto um surfista com credibilidade para ensinar. Não o conseguem fazer nem por observação directa, nem por conselhos de amigos, pois normalmente desconhecem por completo o universo do surf.

3 Impossibilidade dos jovens provenientes das classes menos favorecidas praticarem surf com regularidade, na vertente de lazer e na vertente de competição.

Se não forem criadas estruturas para apoiar jovens de famílias que não podem pagar o transporte para a praia e as aulas de surf, vão-se perder milhares de talentos em cada geração. Não basta fazer eventos pontuais em que se empurram softboards e batem-se palmas a meninos carenciados e no final faz-se um registo fotográfico, previamente acordado com um subsídio camarário. É preciso que haja um trabalho regular nesta matéria. São necessários Professores de Educação Física nas escolas que se dediquem a estas matérias com afinco e profissionalismo. É preciso quadruplicar os apoios financeiros e logísticos aos clubes de surf e até mesmo profissionalizar os seus quadros dirigentes.

Existem outras razões para que o surf competitivo português esteja atrasado. Pode parecer contraditória esta minha observação e espero que não peque por ser escrita nas últimas linhas.

Falta a vontade de surfar por paixão. Sem obrigação, sem treino, sem ambições desmedidas, sem pensar em ordenados milionários e garagens cheias de pranchas novas que dormem ao lado de um carro topo de gama.

É preciso pensar em ser surfista e só depois em ser competidor.

 

(crónica publicada na Onfire Surf)

Amizade de Mar

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Amigo,

o que passamos na adolescência marca-nos para sempre. Aquelas temporadas na nossa praia estarão para sempre nas nossas vidas e, quer queiramos quer não, o sangue que nos corre será sempre em abraço com as nossas recordações. Sempre!

Estamos fisicamente afastados mas procuro lembrar-me do nosso sentimento, mesmo quando da vossa e da minha parte existe um silêncio. A idade foi-nos afastando! É a vida, diz-se por aí. Habituei-me a sentir-vos de uma forma mais ausente, tal como fiz contigo, todos os Verões em que tu te afastavas e arranjavas amigos efémeros, amigos de uns dias de Verão. E olha que desaparecias mesmo!

Compreendo a tua mágoa e também compreendo que seguimos a nossa vida e não temos que lutar por um grupo da juventude que já não é o mesmo. Desde cedo que procurei a emancipação da nossa praia para correr alguns sítios mágicos do mundo, até me fixar perto das minhas ondas de sonho. Sabes que faço tudo por uma onda perfeita. Sempre estive dividido entre atravessar a ponte para a nossa praia de S. João ou perder-me pelas estradas saloias até chegar à Ericeira. Quando a idade permitiu tornei-me mais autónomo e fui escolhendo outro caminho para as ondas. Primeiro de mota, mais tarde de carro, até que comprei uma casita por cá. Agora o caminho é mais curto e a vila da Ericeira está debaixo dos meus olhos. Mas penso sempre na nossa praia e naquele grupo unido. O mar une as pessoas, sabias?

Mas falemos de ti!

Fico feliz de saber que está bem pelas terras do Algarve, mesmo não estando contigo  há muito tempo. Isso é amizade! Há afastamentos, sim! Há pessoas que se modificam totalmente, sim há. Mas no nosso caso a amizade será sempre sincera.

O que te peço é que não sejas tão radical nesse teu corte com o passado. Deixa fluir os sentimentos, deixa-os viajar nessa tua nova e bonita fase da vida, tendo como vizinhos os ares do sul e o cheiro doce das alfarrobeiras. Essa migração Lisboa-Algarve foi uma boa jogada. O Algarve representa para ti o que a Ericeira representa para mim! Um novo caminho. Eu encontrei-o há muitos anos e tu estás a encontrá-lo agora. Às vezes é preciso mudança!

Quanto a viagens, então vais descer à Mauritânia? Gostava muito de o fazer, quem sabe para o ano. O mundo é tão grande e tão pequeno. E as férias parecem que encurtam com a idade, e o dinheiro, esse vai-se amealhando a custo. Para mim é tão bom viajar pelo mundo como viajar pelas memórias. E nessa viagem tu estarás sempre presente.

Em Janeiro quando voltar da Austrália faço-te uma visita, esperando levar comigo uma ondulação de levante ou de mar de fora e, quem sabe, apanhamos umas ondas perfeitas e bebemos uma jola juntos, ao mais alto estilo da nossa praia de sempre.

Um grande abraço,

do teu amigo,

João

Dezembro de 2008

A Caminho de Santiago. A primeira noite

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No Albergue de Peregrinos do Porto fui recebido por uma americana que estava a ajudar na recepção. Percebi mais tarde que era comum alguns viajantes dormirem sem pagar em troca de trabalho voluntário por alguns dias nos sítios onde pernoitavam. O Albergue era confortável e tinha um pequeno jardim onde se podia lavar a roupa num pequeno tanque antigo.

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Depois de guardar alguns pertences num pequeno cofre e conhecer a minha melhor amiga, a cama, situada num primeiro andar de um beliche, num quarto com 6 pessoas, saí para comprar alguma comida para jantar e preparar-me para o primeiro dia de caminhada. Estava no meu país, ia fazer um caminho perfeitamente seguro, mas estava com alguma ansiedade, sentia que tinha que gerir bem a minha energia, que tinha que cuidar dos meus pés e das minhas pernas nesta primeira etapa que acreditava ser de aproximadamente 6 horas. Mas a viagem era uma maratona, uma prova de endurance, era preciso estar bem física e psicologicamente para chegar até ao fim. Fiz o jantar numa autêntica cozinha comunitária, não em tamanho mas em organização e respeito pelos utilizadores. Sentei-me na mesa a ouvir algumas conversas de caminhantes que estavam a regressar do Caminho e outros que já vinham desde Lisboa.

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Para um surfista como eu, era impossível não comparar este Caminho com uma viagem de surf, aqui não se falava de mar mas falava-se continuamente das dificuldades do caminho, dos encontros, das amizades, tantas estórias que eram partilhadas à mesa. O caminho eram as ondas. Aquela subida, aquela descida, a meteorologia, as bolhas nos pés, o número de pessoas nos Albergues, as distâncias entre etapas. Quase tudo girava à volta do mesmo tema. Era um desligar da sociedade em que estamos mergulhados e o que interessava era caminhar, cuidar do nosso corpo, descansar e caminhar novamente, apreciando as paisagens, respeitando as pessoas e os locais por onde passávamos. Era isso que me esperava, era para isso que tinha vindo. Para desligar e pensar. Mal sabia que a tentativa forçada de pensar seria o meu maior erro. O Caminho iria dar-me lições todos os dias, não era preciso pensar muito, pois as dificuldades ou as facilidades eram analogias para o mundo que tinha deixado à porta do Albergue do Porto. Esta era uma viagem interior, espiritual, mas em permanente ligação com o mundo real.

Nessa primeira noite falei com pouco gente, lembro-me apenas de trocar umas palavras com o gerente do espaço, o Miguel, e de ter mantido uma conversa com um estudante chileno que estava de regresso do Caminho Francês e que me dizia, repetidamente, que tinha sido uma viagem especial.

Acordei pelas 7h e já o meu quarto estava quase vazio, depois de um bom pequeno-almoço, às 7h45 já estava a caminhar. Conhecia os Concelhos por onde iria passar, mas apenas pelo litoral, aqui tive a oportunidade de conhecer o interior dos mesmos, Leça do Balio (Matosinhos), Maia, Vila do Conde.

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Começar este Caminho no Porto não era ingenuidade minha, queria sentir a cidade a distanciar-se e o campo a chegar, conhecer os percursos  antigos e a invasão dos novos. Passei à beira de estradas nacionais, subúrbios e zonas industriais, mas em breve encontraria o caminho que procurava, onde tudo seria mais calmo e a natureza dominante.

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História
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Guia
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A sair da cidade

Tow in. Perceber o passado para surfar o futuro

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Laird Hamilton em Teahupoo. By Tim Mckenna

Na véspera de se realizar um evento de tow in na Nazaré, partilho um vídeo de um grupo de pioneiros liderado pelo waterman Laird Hamilton.

Laird, Dave Kalama ou Buzzy Kerbox  inspiraram surfistas em todo o mundo. E as ondas grandes e tubulares como Jaws,  Teahupoo, shipsterns ou mesmo Puerto Escondido, passaram a ter uma abordagem diferente, tubos profundos e rasgadas radicais como se de ondas pequenas se tratassem.

Entretanto os tempos mudaram e o surf de ondas grandes na remada atingiu um nível que alguns pensavam ser impossível. Com muita coragem, conhecimento de mar e pranchas adequadas, passaram-se limites. Entretanto surgiu a Nazaré e o tow in foi ressuscitado (praticamente só era feito em slabs). Desde então têm-se realizado muitas sessões de tow in mas nem sempre com uma boa técnica e muitas vezes apenas com o objectivo de bater records do mundo medindo a onda com “fita métrica” e dropando-a no ombro.

Em boa hora chegaram personalidades como Kay Lenny (escola do Laird Hamilton) ou Lucas Chianca “Chumbo” que, sendo bons surfistas, sabem tirar partido das vantagens do Tow in, impressionando leigos e curiosos, mas também adeptos de longa data da modalidade.

Quando as coisas são bem feitas tudo se torna mais bonito!

Rui Centeno – Estilo e Simplicidade

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Rui Centeno em sintonia com o Oceano. Fotografia de Pedro Mestre (Onfire Surf)

“Um cara que não tem estilo, ele é um merdas, literalmente”

A frase não é minha e não me lembro de quem é. Sei apenas que tem uns bons anos e que foi proferida num filme de surf brasileiro. Em brincadeira com alguns amigos repito-a vezes sem conta e faço questão de aprimorar o sotaque do país irmão:

– Um cára qui não tem stiiloo, Ele é um méeerrdas, literalmente.

Gosto de a pronunciar assim! É mais forte nas vogais e nas consoantes. É mais pura! Abrimos a boca e exercitamos os maxilares ao dizê-la. É um exercício libertador!

Pensando bem, não concordo literalmente com ela, pois ao aceitá-la estaria a chamar nomes a mim próprio. Estilo na água não é o meu forte. Mas desde sempre soube que o estilo faz a diferença em qualquer área de atuação. Seja na música, na moda ou em qualquer atividade radical. Mas no mar a coisa torna-se importante. Então vamos lá ver, temos no cenário uma onda perfeita, um tubo lindo e uma claridade que nenhum estúdio de fotografia consegue reproduzir e, a estragar tudo vai um gajo de rabo empinado e perna aberta? Meus amigos, o estilo no surf não é tudo, mas é quase tudo.

Há por aí muitos esforçados. Mas o estilo não é para quem se esforça. É, em primeiro lugar, para quem se sente em sintonia com o cenário. Aqui não há espaço para aéreos 180º por quem não sabe mandar um simples voo perfeito ou uma viragem de rail natural. Não há espaço para claims ridículos a imitar alguns prós, nem para a palavra atleta para pequeninos surfistas que ainda não são Seres do mar. Não há espaço para treinador Zulmiro que nunca foi surfista e quer formar campeões. Não há espaço para autocolante na prancha em troca de uma t-shirt e uns calções e de muita vaidade. Não há espaço para o bad local em que a qualidade do seu grito não está ao nível da qualidade do seu surf. Não há espaço para big rider sem técnica e sem pulmão, ou para hipster de camisa cara que nunca vingou na competição, onde nunca teve estilo.

Estilo é verdade! E sem verdade não há estilo!

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Estilo é simplicidade. Fotografia de Pedro Mestre (Onfire Surf)

Nesta palavra que vou repetindo vezes sem conta, estilo, pois então, há espaço para surfistas como o Rui Centeno, um verdadeiro surfista da Praia de S. Julião, também ela repleta de pessoas verdadeiras. Um gajo que entra com qualquer tipo de prancha e nos impressiona com a sua pureza e cumplicidade com o mar. Um homem simples, típico em qualquer ambiente. Se morasse na Mouraria seria certamente o gajo mais estiloso das marchas populares e já o estou a ver de cigarro na boca, copo de tinto e bigode dos rijos. Escolheu esta praia que é campo e mar. É o seu recreio, onde é feliz e isso reflete-se na sua arte. Que sorte a nossa poder vê-lo nas nossas águas! Que venham mais da raça dele, sem caganças e sem cool (ismos).

Que estilo bonito, que talento, que simbiose poética. Sempre que o vejo entubar, não consigo deixar de dizer:

“ Um cara que não tem estilo, ele é um merdas, literalmente!”

O Zé de Ribamar

 

DSCN0445Uma barraquinha e um cavalete cá fora onde uma prancha aguarda na sala de operações. Um cantinho verde e os teus cães sempre presentes. Lá em baixo a onda mais perfeita de Portugal. Aqui em cima estás tu Zé, homem simples de Ribamar e um ser errante como tantos outros. Contavas-me, às vezes repetidamente, que há muitos anos te tinhas esquecido na clínica de desintoxicação de uns slides antigos, com fotos históricas das ondas mais perfeitas da Baía dos 2 Irmãos. Foi a malta da fábrica de pranchas que te deu. Devia ser para te dar força. Para te lembrares do mar aqui de Ribamar.

Era apenas teu cliente mas conhecia-te como alguém com hábitos. Passear os cães e desceres na tua mota para observares as ondas da baía. Não ias à água mas no teu sítio sabia sempre se as ondas da semana tinham sido fortes. Alguns locais corajosos deixavam as pranchas ao teu cuidado nos dias de pancada. Tratavas delas, davas-lhes esperança e um prolongar de vida.

Sabes Zé, gostava de parar no teu cantinho, ao lado daquela curva apertada antes do moinho e da marisqueira cheia de domingueiros que não sabem ver o mar sem ser através de janelas e a martelar sapateiras. Esse cantinho tinha cheiro a maresia com resina e posters de surfistas que ainda hoje invejo e de mulheres morenas de corpos perfeitos que é difícil não desejar. Tinha pranchas cheias de história e de sonhos. Sonhos que já não quiseste seguir. Eras um gajo solitário, é verdade, mas tinha dias em que falavas tanto que eu perdia a maré. Caraças, podias continuar a falar, eu ouvia-te, juro!

Soube há uns tempos, mas só agora decidi escrever-te. Puseste fim à vida, seu sacana! Nem me deste tempo para ser teu amigo. Nem sei se algum dia iria ser. Mas talvez a amizade seja feita de coisas simples, como esperar por ti enquanto bebias o teu galão no café do mercadinho. Uma espera interesseira, eu sei. Afinal só queria a prancha pronta para deslizar nas ondas. A minha droga Zé! Aquela que me vicia o corpo e a alma e me dá muitas cicatrizes! Mas faz-me viver a vida com um sorriso louco!

Fodasse Zé, com o paraíso ali em baixo e tu fazes uma merda dessas…

Márcio Freire, um homem que fez história!

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Márcio Freire a fazer história. Arquivo pessoal

Conhecem o Márcio Freire? Provavelmente já ouviram falar do nome, mas não o suficiente para apreciarem e admirarem a sua bravura. Os holofotes em Portugal têm encandeado o público menos atento ao vulgarizar a expressão big wave rider, atribuindo muitas vezes essa designação a surfistas medíocres que procuram a fama desmedida, agarrados à corda de uma mota de água, sem terem as bases necessárias para o fazer. Longe de ser um crítico do tow in, sou admirador de algumas sumidades nessa matéria,  como Laird Hamilton ou Kai Lenny, e de outros tantos surfistas de diferentes nacionalidades que arriscam as suas vidas em busca de descargas de adrenalina, quando o assunto se torna sério em ondas grandes e em slabs perigosos. Mas não confundamos as coisas, nem banalizemos o surf de ondas grandes. Um colete insuflável, uma corda e um piloto de mota de água à espera no canal, podem ajudar muito, mas não transformam surfistas em big wave riders.

Mas não me quero perder pelas cordas do tow in, voltarei ao tema numa próxima crónica, por agora queria falar-vos do Márcio Freire, um freesurfer com uma coragem rara, que enfrentou, com dois amigos (Danilo Couto e Yuri Soledade), a assustadora onda de Jaws quando ninguém imaginava que era possível descê-la apenas com a força de braços. Márcio faz parte de um grupo restrito de surfistas de elite que merece o reconhecimento de todos nós. Viveu em Maui mais de 20 anos e por lá construiu um caminho de respeito, sendo admirado por destemidos surfistas havaianos.

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Márcio e a sua boa energia. Photo by Francois Laborde

Há cerca de um mês, numa sessão de surf no Alentejo, tive o prazer de admirar a sua técnica em ondas pesadas. Visitou o sul a convite do seu amigo de longa data, Bruno Veiga, surfista/fotógrafo e empresário na área de boat trips na Indonésia. Após a surfada, o André Teixeira, meu amigo e pioneiro desse local especial, convidou-nos para uma cervejinha e uma boa conversa. É sempre tão reconfortante uma troca de palavras depois de intensos momentos na água. E garanto-vos que foi um momento especial. Dois portugueses testemunharam a raça de dois brasileiros. A coragem de partir e de lutar pelos seus sonhos. O Márcio rumo ao Havai e o Bruno à Indonésia. Cada um fez o seu caminho e ali estavam eles 20 anos depois em amena cavaqueira, a desfrutar de um pôr-do-sol bonito, após descerem umas ondas de consequência, contando estórias da juventude no seu Brasil.

A amizade do Márcio e do Bruno dava matéria para fazer um documentário que ainda não existe. Mas o Mad Dogs, a história de 3 surfista de ondas grandes, do qual o Márcio é um dos protagonistas, já existe! E é obrigatório ver!